26 set 2020

Será que a pandemia foi capaz de redefinir a pirâmide de Maslow?

Peça clássica dos estudantes de administração, como eu, a teoria das necessidades humanas foi desenvolvida pelo psicólogo americano Abraham Maslow ao longo da década de 50. Tamanha a sua sabedoria e representatividade, ela se encontra em prática até os tempos atuais em nossa sociedade.

Em breve resumo, Maslow acreditava que as necessidades do ser humano eram divididas em cinco níveis dependentes entre si. Isso significa que para ir até a próxima etapa, as necessidades do nível anterior deveriam ser satisfeitas impreterivelmente, até que se chegasse ao topo da pirâmide:

Nível 1 – Necessidades fisiológicas – é a base da pirâmide e é onde se encontram as necessidades mais básicas de qualquer ser humano, como a fome, a sede, a respiração e o sono. Se uma pessoa não tiver algumas dessas necessidades básicas atendidas, é impossível passar para o próximo estágio.

Nível 2 – Segurança – o segundo nível contém elementos que fazem as pessoas se sentirem seguras. Isso significa que é preciso eliminar os fatores de risco para manter a estabilidade. Em outras palavras, as pessoas precisam sentir que suas vidas estão em segurança, no que tange à condição física, financeira, saúde e bem-estar. Elas precisam se sentir seguras em casa, no trabalho e no ambiente que as cercam para continuar seguindo adiante.

Nível 3 – Social – As pessoas também precisam se sentir fazendo parte de um grupo social. Precisam ter amigos, constituir família, criar relações de confiança e ter interações sociais. Ter essa sensação de pertencimento saciada é fundamental para seguir até o próximo nível.

Nível 4 – Estima – Nesta etapa, o ser humano não tem somente a necessidade de fazer parte de um grupo, mas também de ser aprovado e respeitado pelas pessoas que o cerca. Ter a aprovação e o respeito de sua família, de seus amigos ou da sua comunidade trará sentimentos de poder, reconhecimento e orgulho, que por sua vez reforçará sua autoestima.

Nível 5 – Autorrealização – Por fim, para chegar ao ápice da pirâmide será necessário atingir o crescimento por meio dos desafios a serem vencidos. Desafios, estes, capazes de extrair todo o potencial do ser humano através daquilo que mais gosta de fazer, o que lhe trará um forte sentimento de satisfação e autorrealização.

Pois bem, essa é a famosa pirâmide de Maslow! E me parece que a pandemia acertou em cheio pelo menos os três níveis mais básicos dela: necessidades fisiológicas (pois ficamos com medo de respirar livremente), segurança (já que o vírus invisível pode estar em qualquer lugar) e social (uma vez que tivemos que nos manter em isolamento, longe dos nossos amigos e entes queridos).

Assim sendo, tudo isso me fez refletir se, nos tempos atuais, essas continuam sendo as reais necessidades humanas. E, sinceramente, acredito que sim! Contudo, com pequenas alterações em sua base.

Antes de mais nada, não precisa ser nenhum gênio para constatar que o mundo no qual Maslow viveu, era completamente diferente do que vivemos. Digo isso por conta do surgimento de um aparelhinho milagroso que simplesmente revolucionou os hábitos e o comportamento das pessoas: o celular.

A inserção dessa tecnologia proporcionou muito mais interação e conexão entre as pessoas de diversas nações, nos quatro cantos do mundo. E essas interações andam tão frequentes que em determinados momentos são capazes de causar uma confusão mental entre o que é o mundo físico e o virtual. Passaram a fazer parte do nosso cotidiano, da nossa rotina e de como levamos nossas vidas. Em outras palavras, redefiniu as necessidades humanas.

Tudo isso talvez nos dê clareza de que temos vivido na era do click, na era do compartilhamento e na era da perfeição. Eu explico:

A era do click – sim, estamos vivendo na “era do click”, onde temos tudo muito fácil e rápido, bem na palma da nossa mão. Se queremos comer algo, com um click o restaurante vem até nós. Se queremos ir para algum lugar, com um click o taxista vem até a gente. Se queremos comprar algum produto, algum serviço ou qualquer outra coisa, com apenas um click seremos satisfeitos.

A era do compartilhamento – Não basta degustar um jantar em família, temos que compartilhá-lo. Não basta desfrutar de uma bela viagem, temos de compartilhá-la! Vivemos na era da exposição, da intersecção entre vida real e virtual. Compartilhamos nossas vidas com pessoas que nem conhecemos. Temos milhares de amigos virtuais!

A era da perfeição – Unindo a era do click com a era do compartilhamento, chegamos na era da perfeição! Nesse lugar, tudo é lindo e maravilhoso…e perfeito! As pessoas têm vidas super legais e excitantes, repletas de viagens incríveis, estão cheias de amigos, sempre felizes e sorridentes, são bem-sucedidas financeira e profissionalmente. Quanta perfeição! Vida perfeita, emprego perfeito, casa perfeita, corpo perfeito, família perfeita!

Pois bem, existe um ponto comum entre a era do click, a era do compartilhamento e a era da perfeição: o smartphone (ou o tablet ou o notebook). Aliás, a pandemia escancarou o quanto o mundo atual é dependente desses dispositivos. É bem difícil de imaginar passar por tudo que vivemos sem essas maravilhas. E vale lembrar que sem uma bateria bem carregada e sem uma boa conexão de internet, eles perdem muito de sua importância.

Pergunta: seria essa a nova base da pirâmide de Maslow? Smartphone, bateria e conexão de internet? As necessidades tecnológicas aparecem para mim em um grau de importância altíssimo na sociedade em que vivemos. Quanta gente não fica sem dormir ou sem comer, mas não fica sem o seu smartphone?

Digo mais! A junção das eras do click, do compartilhamento e da perfeição, também exerce uma pressão psicológica muito agressiva na cabeça das pessoas que, por vezes, pode ser o estopim para o desencadeamento de outros tipos de doenças psicológicas como a ansiedade, o estresse e até a depressão.

Não à toa, esses temas têm sido tratados com muita frequência nos últimos tempos. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o Brasil estrela na primeira posição em casos de ansiedade do mundo! Empresas têm lidado com a síndrome de Burnout e colaboradores têm se ausentado, porque não estão conseguindo segurar a onda.

Pergunta: sem controle emocional, é possível progredir?

Voltando às necessidades humanas, será que o nosso instinto de sobrevivência não depende completamente do que há de mais importante em nossos cérebros – nossa sanidade, nossa serenidade, nosso equilíbrio? Seriam, as necessidades emocionais, ainda mais importantes que as necessidades tecnológicas? Seria essa a nova base da pirâmide?

Fica aqui a reflexão para que possamos continuar seguindo adiante, com as nossas necessidades atendidas e satisfeitas. E que assim possamos viver bem, melhor e em plenitude!

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