05 jun 2019

Do apogeu à decadência: lições tiradas do case da Blockbuster

Você se lembra daquela cena clássica do filme Titanic, quando os músicos do navio começaram a tocar para acalmar os passageiros diante do caos que estava instaurado? O navio estava em estágio avançado de naufrágio e eles lá, como se estivessem dentro de uma bolha impenetrável, permaneceram tocando heroicamente até quase o mergulho final e silencioso do Titanic!

No mundo corporativo, podemos substituir a figura do Titanic pela das empresas, a figura dos músicos pela dos empresários e a figura do oceano pela do mercado! Em outras palavras, em tempos de crise, quando a empresa está indo de mal a pior, entregando resultados decadentes, se os empresários continuarem com as mesmas estratégias, o mercado vai engolir o negócio como um todo! Pior: se os negócios vão indo de vento em popa, é bom ficar atento para os primeiros sinais de perigo, como aquela primeira colisão do Titanic junto ao iceberg no meio do oceano, que terminou com o naufrágio completo do navio algum tempo depois.

Existem várias histórias que ilustram essa situação! Neste post vou enaltecer a relação entre duas empresas inovadoras que se destacaram e conquistaram o mercado em momentos diferentes. Uma morreu e outra continua cada dia mais forte! Vamos entender os porquês!

Uma dessas empresas é a Blockbuster! No final da década de 1980 essa empresa fez uma releitura do mercado de locação de filmes VHS!

Nessa época, o mercado era composto por diversas locadoras de bairro, que ofereciam em sua grande maioria apenas títulos antigos e renomados e, geralmente, disponibilizava uma única unidade de cada filme. Isso significa que se alguma outra pessoa tivesse interesse no mesmo título que você e chegasse primeiro, você teria que esperar a devolução para poder assisti-lo.    

Liderada por David Cook, um rapaz de apenas 29 anos, a Blockbuster mudou esse conceito! Suas lojas ofereciam uma vasta seleção de filmes, focados principalmente em novos lançamentos vindos do cinema! Lá, os clientes tinham uma experiência amigável, podendo caminhar com facilidade pelos amplos corredores de filmes para selecionar os DVDs de seu interesse e ainda podiam levar para casa alguns complementos como pipoca, doces ou lanches.

O aluguel dos filmes tinha um bem preço justo e podiam ser adquiridos por algo em torno 2 a 5 dólares, sendo que os lançamentos eram os mais caros e os filmes antigos, mais baratos. Como característica do negócio, ao alugar um filme o cliente concordava com o dia e a hora da devolução, podendo pagar multas em caso de atraso. A curiosidade é que essas multas compreendiam cerca de 70% dos lucros da empresa!

Tudo ia muito bem para a Blockbuster! A empresa teve seu auge no início dos anos 2000, depois que foi vendida para a Viacom por U$8,4 bilhões de dólares!

Paralelamente a tudo isso, surgia no final dos anos 90 uma outra empresa que mais tarde revolucionaria o mercado como um todo: a Netflix. Na época, a empresa fundada por Reed Hastings era caracterizada por um serviço online de locação de filmes, cujos DVDs eram entregues via correio para a residência das pessoas.

Algum tempo depois, a Netflix lançou um serviço de assinatura mensal que oferecia locação ilimitada de DVDs: o cliente poderia escolher uma série de filmes no site e, à medida que devolvia os títulos pelo correio, a empresa enviava outros. O negócio da Netflix estava começando a crescer.

Com o sucesso momentâneo dos planos de assinatura da Netflix, essa pequena empresa foi oferecida para a então gigante do mercado – a Blockbuster – por 50 milhões de dólares. Ao analisar a oferta, a Blockbuster entendeu que as margens e os mercados para as novas ofertas da Netflix não pareciam tão atraentes. Por que prestar atenção a essas novas ideias se os mercados são tão pequenos e as margens tão escassas?

Além disso, um novo serviço de envio de DVD por correio exigiria que o modelo operacional da empresa, baseado em lojas de tijolo e cimento, mudasse completamente! Conclusão: por não acreditar que o negócio seria promissor, declinou da oferta e continuou focando onde ainda ganhava dinheiro.  Infelizmente, o que se viu nos anos seguintes foi o princípio do fim!

Aquele era o momento ideal para ter feito a aquisição! OK, é muito fácil falar isso quando a gente já sabe o final da história, mas o fato é que o negócio da Netflix começou a explodir e as vendas da Blockbuster sofreram uma queda abrupta! Foi só aí que a empresa se deu conta que o navio estava afundando. E quando isso aconteceu, já era tarde demais!

Esta não foi a primeira vez que uma empresa perdeu a oportunidade que poderia ter mudado a história do mundo dos negócios! Houve outras fatídicas situações, como a Verizon que vetou a Apple para o primeiro modelo do iPhone; a Comcast precedendo a Disney; a Friendster recusando o Google e a AOL se fundindo com a Time Warner ao invés da AT&T.

A Netflix, por outro lado, tem se reinventado permanentemente! Desde a sua criação até os momentos de dificuldade que passou! Mesmo no auge eles não param de se reinventar!

Um dos segredos dessa filosofia é o inconformismo de seu fundador, movido pelos seus incômodos. Na verdade, pela vontade em resolvê-los!

Quando criou seu negócio, por exemplo, o principal incômodo era: por que tenho que pagar multa por atraso para a Blockbuster? Era algo que o indignava e que o levou à ideia de locação de DVDs entregues e devolvidos pelo correio, sem multa alguma!

Resolvida essa questão, seu incômodo passou a ser outro: por que oferecer apenas transações por títulos? Por que não oferecer um serviço constante e assíduo? Por que não fidelizar e melhorar o relacionamento com o meu cliente? Foi aí que surgiu o modelo de assinatura mensal.

Então, com o estouro das vendas e o aumento significativo da demanda, surgiu um novo desafio: será que vai ser possível entregar dentro do prazo prometido toda essa quantidade de postais, para todas essas cidades do país? Será que existe uma maneira mais prática e rápida de fazer essa distribuição? Foi aí e que veio a grande sacada de distribuição de conteúdo via streaming!

E mesmo com o sucesso cada vez mais crescente, os questionamentos continuaram! Por que só alugamos filmes e shows? Com a forte tendência de consumo de séries, surgiu a nova era das produções próprias da Netflix! Mais um sucesso! Estou curioso para saber quais serão os próximos passos!

Perceba que enquanto a Blockbuster ficou sentada em cima do berço esplêndido de seu sucesso, a Netflix não parou de se reinventar, de se questionar, sempre pensando no que é o melhor para a experiência do seu cliente!

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